quarta-feira, 16 de março de 2011

Texto Underground solto - 2


Essa história aconteceu várias vezes, nunca foi igual, mas sempre parecida. Todo sonho acontece quando não deixa ficar no sono. Eu nunca tinha visto aquelas estradas, era tipo uma vegetação amarela, seco, era um lugar que a gente tava indo, como era o começo do sonho, o desconhecido era inevitável, independente de experiência já vivida. A estrada sempre era cinza e amarela, branca às vezes, cinza. A gurizada toda tava sempre dormindo no nosso badanha móvel, atrolhado de porcaria que a gente limpava só quando parava no posto pra compra gatorade e cigarro. Até hoje não sei direito quem dirigia, eu nunca tive carteira então eu era apenas passageiro sem passaporte. é clichê se eu ficar falando de mulheres, de lúpulo, de malte e cereais que compõem certos líquidos processados, mas preciso falar, porque vai saber sobre o que a juventude vai estar falando no ano que vem?
É claro que a gente é novo. Ninguém nesse trailer tem verruga na cara ainda, a gente só deixou a cabeça no ponto de partida, pro acaso a gente precisar lembrar de alguém. Mas nem tudo que a gente poe na cabeça é boina, e tem gente que a gente guarda no cardíaco. porque no facebook (quem tem) se guarda até receita de miojo.
Nossa função era fazer do seu próprio salário, a receita bruta de todos. porque a comanda sempre foi a mesma pra todo mundo, ninguém fazia roleta russa. a gente não tinha arma porque a gente acreditava que não bastava ter uma arma, o nosso inimigo tinha que desejar que nós tivéssemos uma. Mas a nossa arma era o Loud, o Bass, o Middle e o Gain. Destruíam corações nos Pubs Rio-grandenses. Mas o RS a gente já conhecia, como eu tava dizendo,passávamos pelo cerrado. Terra estranha, é claro, era tudo muito seco, o nariz sangrava de noite, de tarde era quente, de noite frio. De tarde ceva, de noite vinho.
A banda tocou, negrada pulou, socaram um gurizão com um gancho, roda punk pra espantar as gurias, (não, a gente não era adepto dessa filosofia de repelir mulheres) mas eu era desconhecido e isso sempre desperta murmúrios. Valeu a pena os dois dias, se bem me lembro eu era dente e beiço andando por ai.

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